AVANÇOS E DESAFIOS DA MIGRAÇÃO CONTEMPORÂNEA NO 7º FSMM

AVANÇOS E DESAFIOS DA MIGRAÇÃO CONTEMPORÂNEA NO 7º FSMM 

 

A Soweto Organização Negra participou neste sábado, 9 de julho, do 7º Fórum Social Mundial das Migrações (FSMM), realizado na Faculdade Zumbi dos Palmares, SP, apresentando dentro da modalidade atividades autogestionadas a Roda de Conversa Avanços e desafios da migração contemporânea. 

A atividade contou com cerca de 20 participantes, representando entidades e pessoas ligadas às questões das migrações, dos refugiados, do combate ao racismo, ao preconceito, a discriminação, a violência, e a exploração nas suas diferentes manifestações que prejudicam, empobrecem as relações sociais e institucionais pelo mundo afora.


A mediação foi feita por Suelma Deus, brasileira, assistente social, que abriu a roda de conversa agradecendo as presenças e falando brevemente sobre a importância de estarmos atualizados e informados sobre tudo que vem acontecendo em níveis locais e mundiais. Acontecimentos que, sem dúvida, afetam a obrigatoriedade de respeito e promoção dos direitos humanos, em especial, dos imigrantes e refugiados do Continente Africano e Caribe.  Sobretudo, para com os segmentos menos favorecidos, em situação de vulnerabilidade, tais como: migrantes, refugiados, negros, pobres, idosos e outros.

O primeiro tema abordado na Roda foi a tão emblemática, desumana, cruel e injusta questão Palestina, pontuada por Gal Souza, educadora social, brasileira, que fez um relato abreviado de uma experiência vivida quando participou de uma delegação brasileira em visita à Palestina.

Essa delegação foi organizada no contexto do Fórum Social Mundial (FSM) na Tunísia, em março de 2015. Segundo Gal, a visita àquela região contou com apoio da Frente em Defesa do Povo Palestino, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Conlutas, Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada, Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e Soweto Organização Negra. A delegação ficou hospedada na cidade de Ramallah, pois as autoridades israelenses não permitiram a entrada em  Gaza que era o objetivo da Missão. 

Para avaliar o preconceito, a indiferença institucional e repressiva “… quatro horas na fila de espera na fronteira”. Foi este o tratamento dado a delegação, mesmo sendo o Brasil um dos países que reconhece o Estado Palestino, revolta-se Gal. Assim sendo, a delegação permaneceu na Cisjordânia por cinco dias, visitando aldeias, comunidades, famílias de presos políticos, trabalhadores, escolas e campos de refugiados que sofrem o impacto da colonização e apartheid israelense. 

A delegação, segundo ela, nesses dias buscou conhecer, observar de perto como é o cotidiano daquela população.  Constatou-se em vários setores a total ausência de respeito aos direitos fundamentais dos seres humanos, a violência naturalizada, o descaso institucional e todas as outras formas de agressão, dentre elas, a inexistência de direitos trabalhistas para os palestinos que, como forma de sobrevivência, prestam serviços nas fazendas israelenses.

Como resultado desta iniciativa, a delegação assumiu o compromisso de divulgar a situação que vivem os cidadãos na Palestina ocupada, além de se solidarizar com os palestinos que vivem em diáspora aqui no Brasil, especialmente, na cidade de São Paulo.

Dando continuidade ao tema, Soraya Misleh, jornalista, palestinobrasileira, assídua militante dessa causa, que também participou da delegação de 2015, emocionada, comentou a saga de sua família, cujo pai ainda sonha terminar seus dias na sua terra natal: a Palestina. De forma contundente, Soraya falou da sucessão de agressões e torturas sofridas por seu povo em décadas do século passado e que persistem neste 21.

Falou do alto grau de apartheid que impera na região, da limpeza étnica proposta desde 1948, da expulsão de cerca de cinco milhões de palestinos, as diferentes formas de agressão por parte do estado sionista etc. A submissão de Israel às históricas potências hegemônicas que se sucedem. Esses e inúmeros outros fatos se somam e em consequência retardam o reconhecimento do Estado Palestino. Ou seja, interesses outros, interesses externos e internos impedem a soberania Palestina. Concluindo, Soraya, lembrando um pensador (?), afirma: “Os palestinos existem porque persistem”.

Na sequência, o sério bate-papo contou com a contribuição de companheiros africanos, tais como: Aboua Kumassi Koffi Blaise, marfinense, crítico literário, formado em Literatura Brasileira pela USP, Ernesto Vita Pino, angolano, Adama Konate, malinês, Alphonse Nyembo, congolês, Silvio Zanin, brasileiro, representando o Movimento Popular de Solidariedade a Cuba (MPSC) e africanos, refugiados ou não, assim como outras pessoas afinadas com a causa. 

O pesquisador Blaise, entre outros importantes aportes, falou sobre as relações África-Brasil – África-Europa etc e sobre a situação geral do continente africano na atualidade. Por trás de tudo, a eterna e involuntária submissão cultural e econômica, a falta de reconhecimento, de valorização dos povos e nações desse continente berço da civilização. 

Em seu depoimento, Blaise falou do seu espanto ao observar aspectos culturais brasileiros, sobretudo, como o Brasil trata os seus idosos.  Justificou o seu espanto com uma história vivenciada por ele quando morador do Crusp, na Universidade de São Paulo.  Querendo ajudar uma idosa que realizava um trabalho pesado naquelas dependências universitárias, foi aconselhado por um colega de quarto a desistir daquela solidariedade. Em seu argumento, o colega dizia que aquela senhora já era quase uma privilegiada, pois com aquele trabalho ela podia garantir sua sobrevivência.

Este fato trouxe à tona a situação dos idosos no Brasil, vítimas de descaso institucional e social. Alguém dos presentes lembrou que grande parte dos idosos aposentados/as brasileiros é provedor do lar, sustentam familiares de meia idade, jovens e crianças. Comentou-se também sobre os convênios médicos que triplicam mensalidades para esta faixa etária. Há, no Brasil, pesquisas constatando que de cada dez idosos que sofrem ou sofreram violência, nove deles sofreram violência doméstica, ou seja, em sua própria casa. Esta constatação é algo inconcebível para os africanos.

Na comparação com a cultura, valores e os costumes africanos, a forma brasileira de tratar seus idosos é inconcebível. Por aqui, cidadãos e cidadãs brasileiros, depois de uma certa idade, são vistas, às vezes, tratadas como sucatas, um estorvo familiar, social e governamental. Há quem diga que da forma como são deixadas as pessoas idosas neste país que esta é a “melhor idade” para dar tchau ao mundo.

Na África, o idoso é respeitado por sua experiência de vida, registrada pela oralidade que é secularmente valorizada. Ali, a fala e a escrita têm o mesmo peso. Não é necessário ser letrado para passar sua experiência às gerações. Assim sendo, nesta civilização ser idoso é um estágio de vida prazeroso, gratificante “… espera-se dele apenas uma produção espiritual”, defendeu Blaise.

Ainda falando sobre cultura e educação, Blaise pergunta: Por que o Brasil não resgata, não se apropria dos modos de educar dos africanos, dos haitianos, dos indígenas? A valorização de outras culturas em prol da educação brasileira, por certo, seria muito enriquecedora, concluíram os demais participantes da Roda.

Dando continuidade à acalorada discussão, Alphonse Nyembo, congolês, tecnólogo, lembrou que no Brasil não há um sistema de inclusão. Há apenas tentativas esparsas e que “o país é vítima de um passado”, concluiu. 

Entre os presentes, alguém avaliou que as políticas públicas vigentes não passam de paliativos. Outros pontuaram alguns avanços nas últimas gestões federais, mas que, ainda mesmo em fase embrionária, correm o risco de serem banidas, esquecidas, descartadas por governos ilegítimos e insensíveis às causas populares. Há um risco. Há um risco iminente, temem os presentes. Que fazer?

Encerrando os trabalhos, após duas horas de intensa discussão, os participantes reafirmaram a convicção de que diante de um momento de alta complexidade mundial em que vivemos, reflexões, ações, a busca de estratégias, precisam continuar no sentido de tornar mais justas e humanitárias as relações entre pessoas, grupos, comunidades, povos, nações e outros. Que a promoção dos Direitos Humanos na Terra seja de fato tarefa de igual peso para o Estado e a Sociedade.

 


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